Gasolina com 35% de etanol vem aí? Veja o que muda no carro e o que ainda é só teste

O E35 ainda não chegou aos postos. Entenda por que o governo estuda 35% de etanol na gasolina, o que vale hoje e quais podem ser os efeitos no consumo, no carro e no preço.

A gasolina brasileira pode passar a ter 35% de etanol? O assunto ganhou força depois da adoção temporária da mistura com 32% em 2026. Para quem abastece toda semana, as dúvidas são práticas: o carro vai gastar mais, o motor pode sofrer e a gasolina ficará mais barata? A primeira informação é decisiva: o E35 ainda não foi autorizado para venda nos postos. O percentual de 35% está na etapa de avaliação técnica.

Posto de combustíveis no Rio de Janeiro, Brasil
Posto no Rio de Janeiro (foto de arquivo). Wilfredor/Wikimedia Commons, CC0.

Hoje, a gasolina comum e comum aditivada está sujeita à mistura obrigatória de 32% de etanol anidro (E32), em caráter excepcional e temporário desde 1º de agosto de 2026. A medida vale por 180 dias, com possibilidade de uma única prorrogação por mais 180. A gasolina premium continua com 25% de etanol. É o que informa a ANP.

O que significa E35? Não é colocar etanol da bomba no tanque

E35 é o nome dado à gasolina com 35% de etanol anidro e 65% de gasolina de origem fóssil, em volume. Esse etanol é misturado pela cadeia de distribuição antes de o combustível chegar ao posto. Ele não é a mesma apresentação do etanol hidratado vendido separadamente na bomba.

Bombas de etanol e gasolina em posto brasileiro
Bombas de etanol e gasolina no Brasil (foto de arquivo). Harry Wood/Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.

A diferença entre o E32 e um eventual E35 é de três pontos percentuais, e não de um salto de 32% no volume de etanol. Para visualizar: em 50 litros de combustível, uma mistura E32 contém 16 litros de etanol anidro; uma mistura E35 conteria 17,5 litros. É uma comparação matemática da composição, não uma recomendação para preparar combustível em casa.

A mistura de 35% já foi aprovada?

Não. A Lei do Combustível do Futuro permite estudar percentuais de até 35%, mas a elevação depende de comprovação de viabilidade técnica e de uma decisão posterior do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). A ANP esclareceu que sua rede de pesquisa sobre E35, prevista até o fim de 2027, não equivale à avaliação definitiva exigida para vender a nova mistura.

Fiscal da ANP coleta amostra em bomba de combustíveis
Fiscalização de combustíveis em posto brasileiro (foto de arquivo). Divulgação ANP/Marcus Almeida.

Há uma razão para a cautela. O Ministério de Minas e Energia informa que os ensaios usados para subsidiar o E32 examinaram desempenho, dirigibilidade, partida a frio, consumo e emissões em veículos leves e motocicletas representativos. Para teores superiores, incluindo o E35, os estudos também se concentram em durabilidade de componentes e efeitos de longo prazo. Um resultado favorável para E32, portanto, não é autorização automática para E35.

Carro flex, moto ou importado: quem precisa prestar mais atenção?

O veículo flex foi desenvolvido para funcionar com gasolina e etanol hidratado em diferentes proporções. Isso tende a tornar a adaptação da gestão eletrônica mais ampla, mas não dispensa os ensaios sobre a nova gasolina, seus componentes e o uso prolongado. Também não existe base para afirmar que todo carro flex perderá desempenho ou sofrerá dano com E35.

Para carros movidos apenas a gasolina, veículos mais antigos, importados e motocicletas, o cuidado é conferir a orientação do fabricante para o modelo e o mercado em que foi vendido. Não dá para decretar que todos terão problemas, nem prometer compatibilidade universal antes da conclusão dos testes. Se houver uma mudança futura, guarde registros de manutenção e acompanhe eventuais recomendações oficiais da montadora.

O consumo vai aumentar? E o preço vai cair?

O etanol tem menos energia por litro que a gasolina fóssil. Por isso, é plausível que uma mistura com mais etanol altere o rendimento por litro em algumas condições. Mas não há um percentual confiável de aumento de consumo que valha para todos os carros: calibração do motor, trajeto, forma de dirigir e composição final do combustível fazem diferença. Os ensaios do E35 devem trazer respostas mais concretas.

Instalação de produção de etanol em Piracicaba, São Paulo
Produção de etanol em Piracicaba, SP (foto de arquivo). Mariordo/Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Na bomba, mais etanol também não garante gasolina mais barata. O preço final depende de custo do etanol anidro, gasolina, tributos, distribuição e mercado local. Mesmo uma eventual queda no preço por litro precisa ser comparada com o rendimento real do veículo para mostrar se o motorista economizou por quilômetro rodado.

O que fazer enquanto o E35 está em estudo?

Continue abastecendo normalmente em postos de confiança e seguindo o manual do seu veículo. Não tente separar o etanol da gasolina com água ou preparar uma mistura por conta própria: isso modifica o combustível especificado, acrescenta riscos no manuseio e não reproduz uma gasolina aprovada pela ANP.

Fiscal da ANP verifica amostra de combustível
Verificação da qualidade do combustível (foto de arquivo). Divulgação ANP.

A resposta mais útil para o motorista hoje é simples: o E35 é uma possibilidade em avaliação, não uma mudança já implantada. Se os estudos comprovarem viabilidade e o CNPE decidir adotá-lo, será preciso conferir a resolução, a data de início, a especificação da gasolina e os resultados técnicos. Até lá, manchetes que tratem os 35% como obrigatórios nos postos estão adiantando uma decisão que ainda não foi tomada.

Perguntas rápidas

A gasolina já tem 35% de etanol?

Não. Em setembro de 2026, a mistura temporária obrigatória da gasolina comum e comum aditivada é de 32%; na premium, é de 25%.

Existe data para o E35 começar?

Não há data oficial de início de vendas. Os testes e a decisão do CNPE ainda são etapas necessárias.

Meu carro flex vai precisar de adaptação?

Não há anúncio de adaptação obrigatória. É preciso aguardar os resultados dos estudos e eventuais orientações para cada veículo.

Apuração: ANP — regra do E32; ANP — pesquisa do E35; MME/CNPE — estudos e aprovação do E32. Fotos de arquivo ilustram abastecimento, produção e controle de qualidade; não mostram ensaios atuais do E35.

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